Jovens profissionais e o mercado de trabalho – uma ponte sendo construída

Chegou a hora dessa Geração Millenial, jovens nascidos depois de 1995, mostrar o seu valor. Eles estão aí, batendo na porta das empresas, cheios de vontade e gás para trabalhar e inovar. Mas é um povo diferentão, para usarmos uma terminologia da moda. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. É preciso olhar essas mudanças, entendê-las e ajustar as expectativas para que essa ponte que está sendo construída seja sólida e bonita.

Esta geração tem pouco apego à estabilidade. Segundo uma pesquisa da Deloitte (Deloitte Millenial Survey) realizada em 2015, com 7.800 Millenials em 29 países, 70% dos jovens se veem trabalhando de forma independente, ao invés de vinculados a uma empresa. Na minha opinião, isso é que o mais deve ser reforçado neles. A estabilidade, com raríssimas exceções, leva à acomodação. É natural do ser humano reagir mais ao ser provocado. Ao invés do contrato de trabalho e do pertencimento total a uma organização, eles preferem trabalhar por projetos. Começo, meio e no fim a gente vê se tem outra coisa pra fazer que interessa. Não havendo, fomos felizes enquanto juntos e nos vemos na próxima ocasião. Sem rancores, dores ou amores.

Trabalhando por projetos, o sentido do que se faz vai importar mais do que a remuneração. Não que seja uma geração franciscana, onde o dinheiro não importa. Mas importa menos, e é visto como uma consequência natural de um trabalho bem feito. O que convenhamos, é cada vez mais verdade. A mesma pesquisa aponta que 60% dos jovens escolhem seus trabalhos pelo senso de propósito. É uma geração que quer deixar uma marca no mundo e quer contribuir para a solução dos problemas que a gente vem gerando há décadas.

Buscando propósito no que fazem, estudos apontam que até os 38 anos esta geração poderá passar por até 14 empregos diferentes, sem que isso signifique descomprometimento. Muito pelo contrário. As múltiplas experiências são valorizadas e incentivadas. O contato com a diversidade, com geografias e problemas diferentes, a vivência em organizações variadas enriquece o currículo mais que certificações e graduações acadêmicas. Você é o que viveu somado ao que você aprendeu.

Empoderados por essas múltiplas experiências, querem poder fazer como entendem que é correto. E não há nenhum problema nisso, desde que se fiquem atentos aos feedbacks e aos erros para que possam ser rapidamente corrigidos. Melhor pedir perdão, que permissão. Eu ouvi uma vez essa frase do meu filho mais velho. O que soava como rebeldia adolescente pra mim, comecei a perceber como padrão de comportamento no ambiente de trabalho. Estes novos profissionais querem autonomia.

Autonomia inclusive para decidir sobre quanto e quando trabalhar. Mais atentos à saúde e ao corpo, querem poder dar atenção à família, tirar férias, desconectar-se. É o fim dos workaholics, com períodos sabáticos cada vez mais frequentes. O modelo trabalhar, acumular e aposentar aos 65 anos, para então curtir a vida, está morto. Busca-se qualidade de vida.

Para ter essa qualidade de vida, ninguém pode ser indispensável. Conhecer tudo é desnecessário. É importante ter uma visão do todo, mas as tarefas podem ser divididas e lideradas por pessoas diferentes em cada projeto, num modelo colaborativo. Mais cooperação, menos concorrência. Mais interação, menos encasulamento.

Este modelo colaborativo, mais solto, pressupõe organizações mais horizontais, com lideranças alternadas. O reconhecimento deve vir mais rápido, junto com as recompensas pelo bom trabalho. Ou seja, o modelo de carreira precisa ser revisto.

Mas e as empresas? O que pensam de tudo isso?

Elas entendem esse novo desenho de carreira, mas o tempo corporativo é diferente do tempo do vídeo game. Por mais brilhante que seja o profissional, experiência é uma coisa importante que só vem com o tempo. A senioridade vem com lições aprendidas, situações vividas, problemas enfrentados e resolvidos. E isso não acontece do dia pra noite. Não teremos mais plano de carreira que levam 15 anos para chegar no topo, mas não se pode chegar nesse topo com 15 meses. É necessário, portanto, haver um ajuste de expectativas.

Esse ajuste de expectativas, exige profissionais maduros, que saibam ouvir não, administrem suas frustrações e controlem seus egos. Não existe espaço para o dono da bola, que contrariado, acaba a partida e vai jogar em outro campinho. Ou seja, as empresa esperam jovens com preparo comportamental, que se traduz basicamente em inteligência emocional. A capacidade de se motivar, mesmo diante de frustrações, controlando impulsos, canalizando energias para fatos relevantes e encorajadores.

Esse preparo comportamental certamente baliza a forma como o jovem enxerga o seu futuro. As conquistas passadas são importantes, como o conhecimento de idiomas e o credenciamento acadêmico. Mas o que vai fazer diferença é o que se pretende fazer da sua vida e como pretende aplicar isso no seu trabalho. É nessa parte que as organizações estão mais interessadas, porque é o que vai ser vivido dentro delas. O que passou foi importante e construiu uma bagagem, mas o que se pretende fazer com isso é o que realmente importa. Estamos falando de interesses futuros.

Quando falamos de interesses futuros, as empresas enxergam o material produtivo dentro das pessoas e como isso pode ser desenvolvido. Conhecimento técnico para desempenho de uma função pode ser ensinado. Atitude vem embarcada. Mais que experiências anteriores, as empresas inovadoras querem enxergar potencial.

E esse potencial não se aprende dentro dos muros da escola. Ele é formado muito mais pelo que se buscou fora dela. Ninguém mais que os Millenials sabem onde buscar novas informações quando querem. É necessário utilizar isso e construir um repertório.

A amplitude deste repertório vai lhes fazer enxergar o seu trabalho com o olhar de dono. As empresas querem alguém que, além de vestir a camisa, lave e passe. Pessoas atentas à economia de custos, cumprimento de prazos e melhoria de qualidade. Chamam isso de senso de propriedade.

O senso de propriedade leva ao comprometimento. Os profissionais comprometidos buscam permanentemente o caminho do êxito. Funcionam como o porco na história dos ovos com bacon. Nesse prato, a galinha está envolvida porque fornece o ovo, mas comprometido mesmo está o porco que entra com o bacon.
Vejam, portanto, que as expectativas não são tão distantes. O formato precisa ser adequado para que todos falem a mesma linguagem. Mas acho que essa ponte, que já está em construção, e a necessidade das partes, vai fazer os dois lados chegarem felizes ao meio do caminho.

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